É dia. A nitidez do recorte quadrado, ou retangular, delimita na paisagem não apenas uma área mas também um momento, que a paisagem é móvel, mutante, e continua a se compor apesar de cada instante cristalizar-se em formas rigorosas. Tudo é visível, definido, de dia a pino: mas que sombras são essas que tomam a luz da luz, e o brilho, e se tornam personagens? E não há ocasos e auroras que persistem, lagos, istmos, desobrigados da hora diurna?
É dia dentro de Solange. O quadrado ou retângulo abre-se não para fora, pois dessa janela não se cogita, mas para dentro, como uma escotilha para o interior do barco, precisamente os porões, onde as correntes rangem e o nível é abaixo da superfície. Aí é o seu santuário, a ele a artista desce e procura pelo tato, pelo sentimento, sua identidade. É a cripta onde consulta a memória e depõe, num meio transe em que a consciência do pintor, aliás exigente, não se apaga, sobre sua arqueologia, e se desenterra à procura de uma eternidade às avessas, uma vida eterna que começou daqui para trás, ora mais recente, como possível lembranças infantis, ora mais remota, muita coisa que para ela própria é apenas constatação e mistério, com que mesmo o presente tem que ser confrontado, articulado, para se legitimar.
“O que não é meu não existe”, parece dizer. Mas ao mesmo tempo “o meu” significa o dos outros, e por isso que nos toca, porque nos pergunta se não nos lembramos também de quando éramos deuses, de quando não nos havíamos ainda segregado nas nossas insignificâncias.
À medida que nos familiarizamos com a sua linguagem começamos a perceber nuances, o sentido do trágico ou até leveza juvenil, a que precisamos estar atentos, pois há na artista um pudor formal que não pode ser rompido. As suas mudanças são conscientemente freadas, ela não se retira facilmente de uma maneira antes de tê-la esgotado e tem um desenvolvimento coerente que torna importante cada época de sua pintura para a compreensão da totalidade da obra.


José Cláudio 1976